everardo coelho/guia do idiota globalizado


     Onde meter a revolta?

 

 

Parece que a necessidade de renovar, questionar, revolucionar ou simplesmente ser do contra é inerente aos desassossegos do período mais ou menos longo que sucede a pré-adolescência de qualquer mortal. Não significa que alguém não possa ser renovador, questionador ou revolucionário quando adulto, mas o será por coerência, responsabilidade, estilo, interesse desonesto ou falta de caráter e não por imperativo orgânico.

Pois bem, e o que passa quando o pós-pré-adolescente tem também inquietações artísticas e vive numa época em que não há mais nada intacto que possa ser rompido, não há mais nada por fazer para chocar a distinta audiência, não há mais nada escandaloso para incomodar os acadêmicos e conservadores menos categorizados? Que acontece com a pobre cabeça do pobre contestador de hoje quando descobre que qualquer “atitude” ou caminho estético que pense adotar já foi adotado, qualquer “vandalismo” teórico ou prático que resolva estrelar não vai passar de birra infantilóide aos olhos dos medianamente informados, qualquer “loucura” que pretenda protagonizar já foi vivida por um estraga-prazer que andou por aí entre o roaring início do século passado e os desbundados anos 60?

     (Claro que também não estou trazendo nenhuma novidade, mas é justamente isso que estou querendo dizer aqui.)

Tenho sincera pena diante da frustração de nosso avant la lettre de sinal trocado. Pena porque a inquietação é uma das marcas mais elogiáveis num ser humano, e são justamente esses potenciais bem-feitores da humanidade que estão em nossos dias obrigados a engolir o chumbo que pretendiam distribuir e, com a viola sintética dentro do saco de papelão reciclado, sair de porta em porta distribuindo currículo de telefonista de call center.

Poucos se dão conta do impasse, como a banda de rock dos oitenta que reclamava do que ia fazer para crescer sem ter com quem se revoltar. A maioria, na urgência por romper, repete sem saber o que um batalhão de velhinhos aposentados já cansou de fazer nos respectivos tempos.  Por isso tenho me emocionado com o envelhecimento instantâneo dos textos que alguns jovens publicam agora. São uma imitação inconsciente dos escritos das primeiras chuvas modernistas ou dos primeiros chuviscos underground, aqueles que regaram as flores libertárias dos trinta anos anteriores à década dos noventa.

     E os pobres neo-velhos, em sua sincera e honesta vontade de fazer o que vale a pena, produzem belos textos embolorados. A lista das velhas novidades de que se utilizam é extensa: pornografia, coloquialismo, escrita automática, economia de pontuação, uso desaforado de iniciais minúsculas, sinestesia, absurdo, obscuridade cultivada, escárnio, degradação moral do narrador, engajamento naturalista, objetividade excessiva, frases telegráficas, relativismo moral, pessimismo, desconfiança e outros etcéteras. O grave é que utilizam essas coisas não como recurso, mas como o fim perseguido pelo escrito. Não é o caso de utilizar um narrador degradado numa história, mas o de utilizá-lo como se gritasse: "olha que menino terrível: sou ousado a ponto de usar um narrador degradado moralmente. Você não está chocado comigo?" Podem até sair satisfeitos da empreitada. Podem até alimentar uma elevada auto-estima. Podem até criar comunidades internéticas para desafogo e elogio mútuos. Podem até publicar em papel seus textos furibundos e distribuí-los em circuitos alternativos. Mas não acrescentarão “un comino” ao patrimônio artístico da humanidade.

     Fariam melhor se dedicassem sua energia a explorar com personalidade e aplicação as possibilidades já abertas, libertos da necessidade de ser sim porque sim a mais novidadeira vanguarda. Como fazer isso? E eu é que sei?

Escrito por Everardo Coelho às 15h01
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LIGANDO A TV

 

Gostaria de ter a presciência dos personagens da TV e do cinema. Me impressiona ver como sempre sabem em que momento ligar a televisão dentro da história para ver somente o que importa. Mesmo quando é outro personagem que avisa por telefone, há suficiente tempo para ligar o aparelho, sintonizar o canal certo e assistir ao que interessa, do exato ponto que interessa. Dá a falsa impressão que o jornalista-personagem da TV da história fica a postos, apenas esperando a deixa. E com que segurança os personagens desligam o aparelho! Nunca aguardam o repórter-personagem mudar de assunto. Sempre desligam antes de terminar a notícia, com a conviccção de quem sabe que a partir daí nada de relevante vai ser dito, nenhuma informação surpreendente será acrescentada.

 

Se pudéssemos ser assim cirurgicamente seletivos durante a vida, não somente com os noticiários, mas também com as conversas, as aulas e os conselhos, que gente feliz não íamos ser, hem? Você, por exemplo, ia estar agora lendo este texto?



Escrito por Everardo Coelho às 18h57
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