everardo coelho/guia do idiota globalizado


Eis a capa do Palavra inventada, um lindo trabalho do Charles Da Ponte, do Yacaré:



Escrito por Everardo Coelho às 17h59
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Palavra inventada

            Nos próximos dias deverá estar pronto para lançamento meu livro de poemas Palabra inventada/Palavra inventada, edição bilíngüe espanhol/português de Jakembo, em Assunção. Está aí um dos poemas do livro:

  A luz

 

É uma esquina escura,

mas ao lado há um néon.

Na esquina, a menina é

seu próprio anúncio sem luz,

como se fora um néon

a quem se negasse corrente.

Só que ela é mais luminosa,

mais intensa que a forma que pisca

e tenta chamar a atenção

para os sapatos da loja.

A menina da esquina é mais luz,

é mais força que a hidrelétrica

que clareia a noite da rua.

Ela é, na saia minúscula

e na blusa amarrada no peito,

o brilho que enfrenta a sombra

da vida que é só negação.

Quando ela salta do ônibus

e instala um sorriso na cara,

naquela esquina escura

a luz dos deuses dispara.

Os homens que rondam a esquina

não vêem o que não seja ela.

Nem percebem que há um néon

inútil na sapataria.

E quando ela volta pra casa,

cansada de rebrilhar,

os deuses do desamparo,

por meio do choque

da realidade mesquinha,

recarregam-lhe a bateria

e deixam-na pronta

pra ser de novo amanhã

o sol que brilha de noite.

 

  La luz

 

Es una esquina oscura,

pero al lado hay un neón.

En la esquina, la chica es

su propio anuncio sin luz,

como si fuera un neón

a quien se negase corriente.

Solo que ella es más luminosa,

más intensa que la forma que parpadea

e intenta llamar la atención

sobre los zapatos de la tienda.

La chica de la esquina es más luz,

es más fuerza que la hidroeléctrica

que clarea la noche de la calle.

Ella es, en la pollera minúscula

y en la blusa amarrada en el pecho,

el brillo que enfrenta la sombra

de la vida que es solo negación.

Cuando ella baja del ómnibus

e instala una sonrisa en la cara,

en aquella esquina oscura

la luz de los dioses dispara.

Los hombres que rondan la esquina

no ven lo que no sea ella.

Ni perciben que hay un neón

inútil en la zapatería.

Y cuando ella vuelve a casa,

cansada de rebrillar,

los dioses del desamparo,

por medio del choque

de la realidad mezquina,

le recargan la batería

y le dejan lista

para ser otra vez mañana

el sol que brilla de noche.

 

 



Escrito por Everardo Coelho às 17h42
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Século quanto?

 

 

          Ainda a propósito da rodada de baiana da sua majestade dos espanhóis em cima de nosso bolivariano vizinho. Que impressionante¹ é a notícia mais destacada da semana na América Latina ser um arranca-rabo entre dois personagens que a esta altura, a cumprir-se a ordem natural das coisas², deviam estar extintos da face desta terra seculovinteeúmica: um rei e um caudilho³.

          Aliás, despropositadamente a propósito: depois de cinco minutos de noticiário, alguém aí ainda consegue achar graça no Samba do crioulo doido ou em Alice no país das maravilhas?

 

¹ Na verdade, não tem nada de impressionante.

² Que é regredir cada vez mais.

³ Por que mesmo deviam estar extintos? Será que, ao contrário, não devia era haver rei e caudilho brotando a três por quatro deste solo abençoado pelo Capiroto? "Resgatar" e "preservar" não são "conceitos" tão caros a essa gente "ética" que graça a Deus está sempre alerta pra nos ensinar a pensar sobre tudo que há que pensar? Por que então não resgatar a monarquia e preservar a ditadura? O rei morreu? Viva o caudilho! O caudilho morreu? Viva o rei!



Escrito por Everardo Coelho às 19h00
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U

O bolivariano Hugo Chávez ainda não pôde responder ao "Por que não te calas?" do rei da Espanha, porque passou os dois últimos dias concedendo entrevistas em que ele mesmo faz as perguntas, responde irritado, discorda com bravata e ainda emenda a réplica indignada.



Escrito por Everardo Coelho às 16h11
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PÉROLA NA OSTRA

 O vendeiro que viu o velho e o velho que viu que foi visto pelo vendeiro

 

Preocupado com a morte de todas as bezerras metafísicas, o velho sábio distraiu-se a caminho do rio, meteu o pé num buraco da calçada e caiu despencadamente. O barulho da queda chamou a atenção do dono da pequena venda em frente. O vendeiro olhou na direção do velho, levantou-se de um pulo e foi atender um freguês que acabava de entrar. O velho sábio viu que foi visto estatelado e, no átimo que levou para levantar batendo a poeira do venerando traseiro, pensou tudo que um iluminado pensa. Andou com mansidão até a porta da casa, parou e disse com tranqüilidade ao dono da venda: “– Meu filho, meu irmão, companheiro na viagem inexorável pelo cosmo infinito, você não passa de um grandíssimo filho da puta!” Deu meia-volta, olhou o vapor terrível brotando do chão da rua, calculou o quanto ainda faltava para chegar ao rio, percebeu que estava com sede, suado e sujo e aí sentiu um satori comichar naquele lugarzinho onde não bate o sol. Gritou, então, para o ouvido de vivalma aquilo que Fernando Pessoa gritaria em tarde assim de infausta: “Quem sabe o que isto quer dizer?/Eu não sei, e foi comigo...”



Escrito por Everardo Coelho às 16h57
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  O SHOW DO GRUPO GENERACIÓN

 

Transcrevo abaixo nota do jornal ABC, de Assunção, sobre o show do Grupo Generación, um dos mais importantes do mundo musical paraguaio. Escrevi para o show, apresentado no melhor teatro da capital, os textos ditos pela Musa, personagem que funciona como elemento de ligação entre as diversas partes do espetáculo. Depois volto ao assunto aqui.

 

Asunción, Paraguay, Domingo 21 de Octubre de 2007

Arte y espectáculos

 

GRUPO CELEBRO 25 AÑOS CON UN RECITAL

Generación, con un nuevo CD

Generación presentó su disco “Siempre el sol volverá” en un show que fue presentado en el Gran Teatro del Banco Central el viernes pasado. El concierto se caracterizó por su inversión en producción, con una buena calidad en sonidos y luces.

 

 

El grupo Generación en el concierto que ofreció el viernes en el Gran Teatro del Banco Central, ocasión en que presentó su nuevo disco “Siempre el sol volverá”.

El espectáculo se inició con la actriz Dayana Urunaga, que personificaba a la musa inspiradora de los músicos. Ella declamaba unos textos de Everardo Coelho sobre los artistas y la música. El show estuvo dividido en bloques, que se diferenciaban por las intervenciones de Urunaga. El guión y la puesta en escena estuvieron a cargo de Luis Enrique García. Generación comenzó cantando “Ñane aramboha”. El cuarteto vocal estuvo acompañado de un grupo dirigido por Luis Alvarez e integrado por Riolo Alvarenga, Silvio Turró e Ismael Resquín. El grupo presentó un variado repertorio que se inició con canciones paraguayas, e incluyó también temas internacionales de diferentes épocas y países. Tuvo su espacio rockero, con temas de Sui Generis y Queen, así como una selección de carnavalitos bolivianos y un momento instrumental en el tango “Palomita blanca”, con un trío de guitarras, el violín de Alvarez y el bandoneón de Hebert Cáceres. Al final presentó el tema que da nombre al disco, autoría de Hugo Vigray y Hugo Figueroa, pero el público pidió más y Generación retornó con una selección de polcas.



Escrito por Everardo Coelho às 12h56
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A FOTO MOSTRA SENADORES BRASILEIROS ENFRENTANDO DE PEITO ABERTO A OPINIÃO PÚBLICA DEPOIS DA SESSÃO SECRETA QUE LIVROU A CARA DE RENAN CALHEIROS, O QUE DESMENTE A FALSA NOTÍCIA DE QUE ESTARIAM COM VERGONHA DE SAIR À LUZ DO DIA

Apesar de ninguém ter percebido, este blog estava em greve. De protesto contra a falta de criatividade da imprensa brasileira, que graças a uma burra unanimidade saiu em peso com a manchete "Vergonha!" depois que os quarenta lad... quer dizer, senadores livraram a cara amarrotada do, digamos, presidente do, digamos Senado, digamos, Federal do, digamos, Brasil. Ninguém encontrou nada mais original pra dizer?

Que deprimente é ver um senador como Mercadante se explicando pela vergonha da abstenção. Que vergonha é ver em que o PT se transformou ou que vergonha é ver o que o PT revelou ser de verdade. Renan Calheiros, ao que tudo indica, continua o mesmo - não tem agora mais motivo para sentir vergonha do que sempre teve. O PMDB também é o mesmo desde que Ulisses desapareceu no mar, deixando ao partido a vergonha de seguir comandado por próceres do naipe de Orestes Quércia, Jáder Barbalho e Renan Calheiros. Mas não há nada que me dê mais vergonha do que ver na TV o senador Almeida Lima, falando ou calado, gritando "indignado" ou sorrindo de deboche. Não por ele, que é um personagem descartável mesmo na vergonhosa história do Brasil. Mas por saber que ele é o homem certo no lugar certo nessa época em que anda de moda outra vez a vergonha de ser brasileiro. Quer saber? O título desta nota também é Vergonha! Não creio haver nada mais original a dizer.



Escrito por Everardo Coelho às 10h58
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Testemunha ocular é outra coisa

 

O embaixador norte-americano em Bagdá, Ryan Crocker, disse hoje no Congresso dos EUA que "um Iraque seguro, estável, democrático e em paz com seus vizinhos é alcançável".

Pra vocês verem o quanto é sério esse negócio de percepção. Daqui de longe e vendo todo dia essas miragens que parecem carros-bomba explodindo e matando muita gente, temos a falsa impressão de que a coisa lá tá preta. Mas não tá não. Tá melhorando e muito.



Escrito por Everardo Coelho às 20h49
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PORQUE HOJE É SÁBADO E ONTEM FOI 7 DE SETEMBRO

 

  • Digamos que D. Pedro I – por pudor (sei que era uma palavra meio fora do dicionário do futuro imperador, mas especulemos) – tivesse buscado moita mais discreta, fora da estrada, naquele 7 de setembro de 1822 em que se retorcia de dor de barriga.
  • Digamos que por isso tivesse se desencontrado com os emissários de José Bonifácio e D. Leopoldina.
  • Digamos que tivesse passado direto da casa da marquesa de Santos para a casa de outra amiguinha, em outro lugar, e que tivesse ficado nessa tal casa umas outras duas ou três semanas de nobre dissolução.
  • Digamos que, quando ele chegasse de volta ao palácio, D. Leopoldina estivesse surpreendentemente furiosa com os pulos de cerca do marido e até se esquecesse da história das Cortes Portuguesas, laços fora soldados, independência ou morte, etc., etc., e que achasse que a família devia mesmo era voltar pra Portugal, onde as famosas mulheres de bigode talvez fossem água fria no facho ardente do pequeno príncipe.
  • Digamos que D. Pedro, convencido pela autoritária habsburga, fosse de volta a Lisboa levando também a coroa de que aventureiro algum tinha lançado mão, além de José Bonifácio, uma caixa já aberta de camisinhas e um contêiner cheio de tiradentinhos ainda bebês.
  • Digamos que ficassem por aqui só os portugas de bigodão tarados pelas recém-geneticamente modificadas mulatas, preocupados mais com a temperatura do forno da padaria que com a impenetrabilidade da defesa do Vasco.
  • Digamos que uns anos antes os tupinambás tivessem dado uma taca federal nos bandeirantes (já então barbudos) e mandado os grosseirões de volta, com o bacamarte entre as pernas, para a rotina de um chopis e dois paster na feira.
  • Digamos que a Embrapa da época tivesse, mais antes ainda e por terrível confusão, levado as mudas de café pra Pernambuco, as de cana pro Pará e as de pimenta-do-reino pra São Paulo, e que tudo tivesse dado errado e que nenhuma capitania tivesse prosperado.
  • Digamos que o bispo Sardinha ainda estivesse na lata.
  • Digamos que as flechas de Araribóia tivessem acertado Estácio de Sá, em vez de São Sebastião. Ou seria o contrário?
  • Digamos que Dom Casmurro não fosse estéril, que Capitu não tivesse sem-vergonhado com Escobar e que Ezequiel não tivesse nascido a cara do pai.
  • Digamos que, mais uma vez pela sempre historicamente intrometida dor de barriga, Deodoro não tivesse ido proclamar a República.
  • Digamos que o lábaro não fosse assim tão estrelado.
  • Digamos que Getúlio Vargas tivesse levado o Brasil a entrar na Segunda Guerra do lado dos nazistas, por gostar de torta de maçã com chimarrão.
  • Digamos que a ditadura militar tivesse começado antes, aí pelo ano de 1500, que é quando parece que começou de verdade.
  • Digamos que Tarsila do Amaral tivesse jogado um balde de tinta preta sobre Abaporu num ataque prudente de autocrítica.
  • Digamos que JK pudesse viver fora da água fria e sem a tua companhia.
  • Digamos que Jânio Quadros tivesse tomado um engov no dia da renúncia.
  • Digamos que Pelé tivesse feito só 999 gols.
  • Digamos que estivesse chovendo, e a garota de Ipanema não tivesse podido tirar de casa seu doce balanço a caminho do mar.
  • Digamos que Collor tivesse ido até o fim do mandato e do País.
  • Digamos que Caymmi tivesse ido pra Maracangalha sem Anália nem chapéu de palha.
  • Digamos que o Carlinhos Brown tivesse paciência pra televisão e fosse audiência para a solidão.
  • Digamos que o “P” da CPMF quisesse mesmo dizer “Provisória”.
  • Digamos que algum filho de Deus tivesse segurado o tchan lá no começo e ainda do lado de fora da gravadora.
  • Digamos que a Xuxa não tivesse filmado nua se esfregando num impúbere.
  • Digamos que o mensalão fosse pura lenda e que José Dirceu ainda fosse somente o guerrilheiro narigudo de antes da cirurgia plástica e de ter estado de olho numa butíquer do interior do Paranar.
  • Digamos que a camélia não tivesse morrido depois de cair do galho e dar dois suspiros.
  • Digamos que eu ainda me lembrasse aonde é que queria chegar com todos esses digamos: será que o Brasil estaria menos mal do que está, com cada vez maior parcela da população dependendo da esmola do Bolsa Família[1]?


[1] Sou completamente a favor do programa como medida de emergência, mas é preocupante que cada vez tenhamos mais (e não menos) gente dependendo do que é tecnicamente uma esmola. Concordo com os que estão insistindo que o governo deve desenhar o mapa para a porta de saída, o que, aí sim, vai demonstrar o verdadeiro sucesso da medida.



Escrito por Everardo Coelho às 15h23
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Irritado com o blog, Lula perde a cabeça e ameaça minha família

 

            Cansado de ver as irregularidades do governo serem reveladas aqui no blog em primeira mão e de forma devastadora, o presidente explodiu e passou a ameaçar minha família publicamente: “vou fazer meu coelhinho assado”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo, com um sorriso piromaníaco e uma piscadela santainquisidora, esfregando as mãos e espumando ao redor da barba.

O primeiro impulso foi responder no nível dele e mandar a autoridade assar a &$%#@* que o #@*$%& no forno da cozinha da casa do c*&#@. Mas, como nós os Coelhos estamos acostumados a pular obstáculos e a roer a cenoura que o diabo plantou, não nos intimidamos nem perdemos a compostura. Entramos com uma medida bastante cautelar junto à Sociedade Protetora dos Animais e impetramos um habeas corpus vingativo junto à Confraria dos Apreciadores de Paella. A primeira instituição nos emprestou pra cão de guarda um lobista mau de aspecto ameaçador e grandes tentáculos espalhados por vários órgãos públicos federais, e a segunda prometeu recomendar o aumento da quantidade de lula na receita do risotão em todos os restaurantes do País.

É isso aí. Ele pode até assar um de nós, mas nós também não passamos uma semana sem comer um prato que mistura, no mesmo sarapatel, lula e o polvo que votou nele nas últimas eleições. Dá uma bruta azia, mas nós tacamos um sonrisal de sobremesa.



Escrito por Everardo Coelho às 09h35
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Boi da cara preta, pega logo esse menino!

 

            Se de ética se trata, podemos economizar tempo e dinheiro e já ir diretamente à condenação do senador Renan Calheiros. O simples fato de não ter se afastado da presidência do Senado é mais que suficiente para demonstrar que ele não tem respeito pela ética. Continua no cargo a que se subordinam os que dão parecer e encaminham decisões em questões relacionadas ao processo dele. Precisa mais? Por mim, deviam condená-lo sem mais análise por quebra de decoro e enviar a papelada à Justiça para os demais trâmites.



Escrito por Everardo Coelho às 20h08
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LULA CONFIRMA DEGRADAÇÃO MORAL E ÉTICA NO BRASIL

 

          “Ninguém nesse país tem mais autoridade moral, ética e política que o nosso partido”, disse o presidente Lula no sábado 1º, durante o 3º Congresso do PT, em São Paulo. Ora, se – com tudo o que políticos do PT andaram aprontando ultimamente – ninguém tem mais autoridade moral e ética que eles, é porque o Brasil já anda cavoucando para muito mais além do fundo do poço, ali quase despontando do outro lado do mundo em terras de olho puxado. Como desconfiávamos.



Escrito por Everardo Coelho às 10h38
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Pensou que eu não tinha coragem? Pois acertou.

 

Meu amigo Alcázar me intima por telefone a dar nome a algum boi da manada dos neovelhos revoltosos. Para não ser injusto, digo que basta ir ao Google, buscar “poesia”, “conto”, “literatura” ou qualquer outra expressão da família e entrar nos blogs. Eles estarão principalmente aí. Góticos de pretinho básico, sartrianos de boina engomada, dadaístas de mata-borrão encharcado, waltwhitmanianos depois do prestobarba, jamesjoycianos depois-de-mim-o-dilúvio, jackkerouaquianos depois-eu-volto-pra-estrada, cortazianos depois-vovô-vê-a-uva, henrymillerianos depois-eu-penso-em-nexo-pro-sexo, borgianos não-tô-nem-aí-mas-não-desvia-a-câmera-de-mim e por aí vai. Fui claro? Se fui, perdão. Não era minha intenção.



Escrito por Everardo Coelho às 14h33
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     Onde meter a revolta?

 

 

Parece que a necessidade de renovar, questionar, revolucionar ou simplesmente ser do contra é inerente aos desassossegos do período mais ou menos longo que sucede a pré-adolescência de qualquer mortal. Não significa que alguém não possa ser renovador, questionador ou revolucionário quando adulto, mas o será por coerência, responsabilidade, estilo, interesse desonesto ou falta de caráter e não por imperativo orgânico.

Pois bem, e o que passa quando o pós-pré-adolescente tem também inquietações artísticas e vive numa época em que não há mais nada intacto que possa ser rompido, não há mais nada por fazer para chocar a distinta audiência, não há mais nada escandaloso para incomodar os acadêmicos e conservadores menos categorizados? Que acontece com a pobre cabeça do pobre contestador de hoje quando descobre que qualquer “atitude” ou caminho estético que pense adotar já foi adotado, qualquer “vandalismo” teórico ou prático que resolva estrelar não vai passar de birra infantilóide aos olhos dos medianamente informados, qualquer “loucura” que pretenda protagonizar já foi vivida por um estraga-prazer que andou por aí entre o roaring início do século passado e os desbundados anos 60?

     (Claro que também não estou trazendo nenhuma novidade, mas é justamente isso que estou querendo dizer aqui.)

Tenho sincera pena diante da frustração de nosso avant la lettre de sinal trocado. Pena porque a inquietação é uma das marcas mais elogiáveis num ser humano, e são justamente esses potenciais bem-feitores da humanidade que estão em nossos dias obrigados a engolir o chumbo que pretendiam distribuir e, com a viola sintética dentro do saco de papelão reciclado, sair de porta em porta distribuindo currículo de telefonista de call center.

Poucos se dão conta do impasse, como a banda de rock dos oitenta que reclamava do que ia fazer para crescer sem ter com quem se revoltar. A maioria, na urgência por romper, repete sem saber o que um batalhão de velhinhos aposentados já cansou de fazer nos respectivos tempos.  Por isso tenho me emocionado com o envelhecimento instantâneo dos textos que alguns jovens publicam agora. São uma imitação inconsciente dos escritos das primeiras chuvas modernistas ou dos primeiros chuviscos underground, aqueles que regaram as flores libertárias dos trinta anos anteriores à década dos noventa.

     E os pobres neo-velhos, em sua sincera e honesta vontade de fazer o que vale a pena, produzem belos textos embolorados. A lista das velhas novidades de que se utilizam é extensa: pornografia, coloquialismo, escrita automática, economia de pontuação, uso desaforado de iniciais minúsculas, sinestesia, absurdo, obscuridade cultivada, escárnio, degradação moral do narrador, engajamento naturalista, objetividade excessiva, frases telegráficas, relativismo moral, pessimismo, desconfiança e outros etcéteras. O grave é que utilizam essas coisas não como recurso, mas como o fim perseguido pelo escrito. Não é o caso de utilizar um narrador degradado numa história, mas o de utilizá-lo como se gritasse: "olha que menino terrível: sou ousado a ponto de usar um narrador degradado moralmente. Você não está chocado comigo?" Podem até sair satisfeitos da empreitada. Podem até alimentar uma elevada auto-estima. Podem até criar comunidades internéticas para desafogo e elogio mútuos. Podem até publicar em papel seus textos furibundos e distribuí-los em circuitos alternativos. Mas não acrescentarão “un comino” ao patrimônio artístico da humanidade.

     Fariam melhor se dedicassem sua energia a explorar com personalidade e aplicação as possibilidades já abertas, libertos da necessidade de ser sim porque sim a mais novidadeira vanguarda. Como fazer isso? E eu é que sei?

Escrito por Everardo Coelho às 15h01
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LIGANDO A TV

 

Gostaria de ter a presciência dos personagens da TV e do cinema. Me impressiona ver como sempre sabem em que momento ligar a televisão dentro da história para ver somente o que importa. Mesmo quando é outro personagem que avisa por telefone, há suficiente tempo para ligar o aparelho, sintonizar o canal certo e assistir ao que interessa, do exato ponto que interessa. Dá a falsa impressão que o jornalista-personagem da TV da história fica a postos, apenas esperando a deixa. E com que segurança os personagens desligam o aparelho! Nunca aguardam o repórter-personagem mudar de assunto. Sempre desligam antes de terminar a notícia, com a conviccção de quem sabe que a partir daí nada de relevante vai ser dito, nenhuma informação surpreendente será acrescentada.

 

Se pudéssemos ser assim cirurgicamente seletivos durante a vida, não somente com os noticiários, mas também com as conversas, as aulas e os conselhos, que gente feliz não íamos ser, hem? Você, por exemplo, ia estar agora lendo este texto?



Escrito por Everardo Coelho às 18h57
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